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CASADA E
VIVA
MACHADO DE
ASSIS
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Casada e Viva
CAPTULO PRIMEIRO
NO DIA em que Jos de Meneses recebeu por mulher Eullia Martins, diante
do altar-mor da matriz do Sacramento, na presena das respectivas
famlias, aumentou-se com mais um a lista dos casais felizes.
Era impossvel amar-se mais do que se amavam aqueles dous. Nem me
atrevo a descrev-lo. Imagine-se a fuso de quatro paixes amorosas das
que a fbula e a histria nos do conta e ter-se- a medida do amor de Jos
de Meneses por Eullia e de Eullia por Jos de Meneses.
As mulheres tinham inveja  mulher feliz, e os homens riam dos
sentimentos, um tanto piegas, do apaixonado marido. Mas os dous filsofos
do amor relevaram  humanidade as suas fraquezas e resolveram protestar
contra elas amando-se ainda mais.
Mal contava um ms de casado, sentiu Jos de Meneses, em seu egosmo
de noivo feliz, que devia fugir  companhia e ao rumor da cidade. Foi
procurar uma chcara na Tijuca, e l se encafuou com Eullia.
Ali viam correr os dias no mais perfeito descuido, respirando as auras
puras da montanha, sem inveja dos maiores potentados da terra.
Um ou outro escolhido conseguiu s vezes penetrar no santurio em que
os dous viviam, e de cada vez que de l saa vinha com a convico mais
profunda de que a felicidade no podia estar em outra parte seno no amor.
Acontecia, pois, que, se as mulheres invejavam Eullia e se os homens
riam de Jos de Meneses, as mes, as mes previdentes, a espcie santa,
no dizer de E. Augier, nem riam nem se deixavam dominar pelo sexto
pecado mortal: pediam simplesmente a Deus que lhes deparasse s filhas
um marido da estofa e da capacidade de Jos de Meneses.
Mas cumpre dizer, para inspirar amor a maridos tais como Jos de
Meneses, era preciso mulheres tais como Eullia Martins. Eullia em alma e
corpo era o que h de mais puro unido ao que h de mais belo. Tanto era
um milagre de beleza carnal, como era um prodgio de doura, de elevao
e de sinceridade de sentimentos. E, sejamos francos, tanta cousa junta no
se encontra a cada passo.
Nenhuma nuvem sombreava o cu azul da existncia do casal Meneses.
Minto, de vez em quando, uma vez por semana apenas, e isto s depois de
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cinco meses de casados, Eullia derramava algumas lgrimas de
impacincia por se demorar mais do que costumava o amante Jos de
Meneses. Mas no passava isso de uma chuva de primavera, que, mal
assomava o sol  porta, cessava para deixar aparecer as flores do sorriso e
a verdura do amor. A explicao do marido j vinha sobreposse; mas ele
no deixava de d-la apesar dos protestos de Eullia; era sempre excesso
de trabalho que pedia a presena dele na cidade at uma parte da noite.
Ano e meio viveram assim os dous, ignorados do resto do mundo, brios
da felicidade e da solido.
A famlia tinha aumentado com uma filha no fim de dez meses. Todos
que so pais sabem o que  esta felicidade suprema. Aqueles quase
enlouqueceram. A criana era um mimo de graa anglica. Meneses via nela
o riso de Eullia, Eullia achava que os olhos eram os de Meneses. E neste
combate de galanteios passavam as horas e os dias.
Ora, uma noite, como o luar estivesse claro e a noite fresqussima, os
dous, marido e mulher, deixaram a casa, onde a pequena ficara
adormecida, e foram conversar junto ao porto, sentados em cadeiras de
ferro e debaixo de uma viosa latada, sub tegmine fagi.
Meia hora havia que ali estavam, lembrando o passado, saboreando o
presente e construindo o futuro, quando parou um carro na estrada.
Voltaram os olhos e viram descer duas pessoas, um homem e uma
mulher.
 H de ser aqui, disse o homem olhando para a chcara de Meneses .
Neste momento o luar deu em cheio no rosto da mulher. Eullia
exclamou:
  Cristiana!
E correu para a recm-chegada.
Os dous novos personagens eram o Capito Nogueira e Cristina
Nogueira, mulher do capito.
O encontro foi o mais cordial do mundo. Nogueira era j amigo de Jos
de Meneses, cujo pai fora colega dele na escola militar, andando ambos a
estudar engenharia. Isto quer dizer que Nogueira era j homem dos seus
quarenta e seis anos.
Cristiana era uma moa de vinte e cinco anos, robusta, corada uma
dessas belezas da terra, muito apreciveis, mesmo para quem goza uma
das belezas do cu, como acontecia a Jos de Meneses.
Vinham de Minas, onde se haviam casado.
Nogueira, cinco meses antes, sara para aquela provncia a servio do
Estado e ali encontrou Cristiana, por quem se apaixonou e a quem soube
inspirar uma estima respeitosa. Se eu dissesse amor, mentia, e eu tenho
por timbre contar as cousas como as cousas so. Cristiana, rf de pai e
me, vivia na companhia de um tio, homem velho e impertinente, achacado
de duas molstias gravssimas: um reumatismo crnico e uma saudade do
regmen colonial. Devo explicar esta ltima enfermidade; ele no sentia que
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o Brasil se tivesse feito independente; sentia que, fazendo-se independente,
no tivesse conservado a forma de governo absoluto. Gorou o ovo, dizia
ele, logo depois de adotada a constituio. E protestando interiormente
contra o que se fizera, retirou-se para Minas Gerais, donde nunca mais saiu.
A esta ligeira notcia do tio de Cristiana acrescentarei que era rico como um
Potosi e avarento como Harpago.
Entrando na fazenda do tio de Cristiana e sentindo-se infludo pela beleza
desta, Nogueira aproveitou-se da doena poltica do fazendeiro para
lisonje-la com umas fomentaes de louvor do passado e indignao pelo
presente. Em um servidor do Estado atual das cousas, achou o fazendeiro
que era aquilo uma prova de rara independncia, e o estratagema do
capito surtiu duas vantagens: o fazendeiro deu-lhe a sobrinha e mais um
bom par de contos de ris. Nogueira, que s visava a primeira, achou-se
felicssimo por ter alcanado ambas. Ora,  certo que, sem as opinies
forjadas no momento pelo capito, o velho fazendeiro no tiraria  sua
fortuna um ceitil que fosse.
Quanto a Cristiana, se no sentia pelo capito um amor igual ou mesmo
inferior ao que lhe inspirava, votava-lhe uma estima respeitosa. E o hbito,
desde Aristteles todos reconhecem isto, e o hbito, aumentando a estima
de Cristiana, dava  vida domstica do Capito Nogueira uma paz, uma
tranqilidade, um gozo brando, digno de tanta inveja como era o amor
sempre violento do casal Meneses.
Voltando  corte, Cristiana esperava uma vida mais prpria aos seus
anos de moa do que a passada na fazenda mineira na companhia fastidiosa
do reumtico legitimista. Pouco que pudessem alcanar as suas iluses, era
j muito em comparao com o passado.
Dadas todas estas explicaes, continuo a minha histria.
CAPTULO II
DEIXO AO ESPRITO do leitor ajuizar como seria o encontro de amigos que
se no vem h muito.
Cristiana e Eullia tinham muito que contar uma  outra, e, em sala 
parte, ao p do bero em que dormia a filha de Jos de Meneses, deram
largas  memria, ao esprito e ao corao. Quanto a Nogueira e Jos de
Meneses, depois de narrada a histria do respectivo casamento e suas
esperanas de esposos, entraram, um na exposio das suas impresses de
viagem, o outro na das impresses que deveria ter em uma viagem que
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projetava.
Passaram-se deste modo as horas at que o ch reuniu a todos quatro 
roda da mesa de famlia. Esquecia-me dizer que Nogueira e Cristiana
declararam desde o princpio que, tendo chegado pouco havia, tencionavam
demorar-se uns dias em casa de Meneses at que pudessem arranjar na
cidade ou nos arrabaldes uma casa conveniente.
Meneses e Eullia ouviram isto, pode-se dizer que de corao alegre. Foi
decretada a instalao dos dous viajantes. Tarde se levantaram da mesa,
onde o prazer de se verem juntos os prendia insensivelmente. Guardaram o
muito que ainda havia a dizer para os outros dias e recolheram-se.
 Conhecia Jos de Meneses? perguntou Nogueira a Cristiana ao retirar-se
para os seus aposentos.
 Conhecia de casa de meu pai. Ele ia l h oito anos.
  uma bela alma!
 E Eullia!
 Ambos! ambos!  um casal feliz!
 Como ns, acrescentou Cristiana abraando o marido.
No dia seguinte, foram os dous maridos para a cidade, e ficaram as duas
mulheres entregues aos seus coraes.
De volta, disse Nogueira ter encontrado casa; mas era preciso arranj-la,
e foi marcado para os arranjos o prazo de oito dias.
Os seis primeiros dias deste prazo correram na maior alegria, na mais
perfeita intimidade. Chegou-se a aventar a idia de ficarem os quatro
habitando juntos. Foi Meneses o autor da idia. Mas Nogueira alegou ter
necessidade de casa prpria e especial, visto como esperava alguns
parentes do Norte.
Enfim, no stimo dia, isto , na vspera de se separarem os dous casais,
estava Cristiana passeando no jardim,  tardinha, em companhia de Jos de
Meneses, que lhe dava o brao. Depois de trocarem muitas palavras sobre
cousas totalmente indiferentes  nossa histria Jos de Meneses fixou o
olhar na sua interlocutora e aventurou estas palavras:
 No tem saudade do passado, Cristiana?
A moa estremeceu, abaixou os olhos e no respondeu.
Jos de Meneses insistiu. A resposta de Cristiana foi:
 No sei, deixe-me!
E forcejou por tirar o brao do de Jos de Meneses; mas este reteve-a.
 Que susto pueril! Onde quer ir? Meto-lhe medo?
Nisto parou ao porto um moleque com duas cartas para Jos de
Meneses. Os dous passavam neste momento em frente do porto. O
moleque fez entrega das cartas e retirou-se sem exigir resposta.
Meneses fez os seguintes raciocnios:  L-las imediatamente era dar
lugar a que Cristiana se evadisse para o interior da casa; no sendo as
cartas de grande urgncia, visto que o portador no exigira resposta, no
havia grande necessidade de l-las imediatamente. Portanto guardou as
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cartas cuidadosamente para l-las depois.
E de tudo isto conclui o leitor que Meneses tinha mais necessidade de
falar a Cristiana do que curiosidade de ler as cartas.
Acrescentarei, para no dar azo aos esmerilhadores de
inverossimilhanas, que Meneses conhecia muito bem o portador e sabia ou
presumia saber de que tratavam as cartas em questo.
Guardadas as cartas, e sem tirar o brao a Cristiana, Meneses continuou
o passeio e a conversao.
Cristiana estava confusa e trmula. Durante alguns passos no trocaram
uma palavra.
Finalmente, Mcneses rompeu o silncio perguntando a Cristiana: - Ento,
que me responde?
 Nada, murmurou a moa.
 Nada! exclamou Meneses. Nada! era ento esse o amor que me tinha?
Cristiana levantou os olhos espantados para Meneses. Depois,
procurando de novo tirar o brao do de Meneses, murmurou:
 Perdo, devo recolher-me.
Meneses reteve-a de novo.
 Oua-me primeiro, disse. No lhe quero fazer mal algum. Se me no
ama, pode diz-lo, no me zangarei; receberei essa confisso como o
castigo do passo que dei, casando minha alma que se no achava solteira.
 Que estranha linguagem  essa? disse a moa. A que vem essa
recodao de uma curta fase da nossa vida, de um puro brinco da
adolescncia?
 Fala de corao?
 Pois, como seria?
 Ah! no me faa crer que um perjrio. . .
 Perjrio!...
A moa sorriu-se com desdm. Depois continuou:
 Perjrio  isto que faz. Perjrio  trazer enganada a mais casta e a mais
digna das mulheres, a mais digna, ouve? Mais digna do que eu que ainda o
ouo e lhe respondo.
E dizendo isto Cristiana tentou fugir.
 Onde vai? perguntou Meneses. No v que est agitada? Poderia fazer
nascer suspeitas. Demais, pouco tenho a dizer-lhe.  uma despedida. Nada
mais, em nenhuma ocasio, ouvir de minha boca. Supunha que atravs
dos tempos e das adversidades tivesse conservado pura e inteira a
lembrana de um passado que nos fez felizes. Vejo que me enganei.
Nenhum dos caracteres superiores que eu enxergava em seu corao tinha
existncia real. Eram simples criaes do meu esprito demasiado crdulo.
Hoje que se desfaz o encanto, e que eu posso ver toda a enormidade da
fraqueza humana, deixe-me dizer-lhe, perdeu um corao e uma existncia
que no merecia. Saio-me com honra de um combate em que no havia
igualdade de foras. Saio puro. E se no meio do desgosto em que me fica a
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alma, -me lcito traz-la  lembrana, ser como um sonho esvaecido, sem
objeto real na terra.
Estas palavras foram ditas em um tom sentimental e como que estudado
para a ocasio.
Cristiana estava aturdida. Lembrava-se que em vida de seu pai, tinha ela
quinze anos, houvera entre ela e Jos de Meneses um desses namoros de
criana, sem conseqncia, em que o corao empenha-se menos que a
fantasia.
Com que direito vinha hoje Meneses reivindicar um passado cuja
lembrana, se alguma havia, era indiferente e sem alcance?
Estas reflexes pesaram no esprito de Cristiana. A moa exp-las em
algumas palavras cortadas pela agitao em que se achava, e pelas
interrupes dramticas de Meneses.
Depois, como aparecesse Eullia  porta da casa, a conversa foi
interrompida.
A presena de Eullia foi um alvio para o esprito de Cristiana. Mal a viu,
correu para ela, e convidou-a a passear pelo jardim, antes que anoitecesse.
Se Eullia pudesse nunca suspeitar da fidelidade de seu marido veria na
agitao de Cristiana um motivo para indagaes e atribulaes. Mas a alma
da moa era lmpida e confiante, dessa confiana e limpidez que s d o
verdadeiro amor.
Deram as duas o brao, e dirigiram-se para uma alameda de casuarinas,
situada na parte oposta quela em que ficara passeando Jos de Meneses.
Este, perfeitamente senhor de si, continuou a passear como que
entregue a suas reflexes. Seus passos, em aparncia vagos e distrados,
procuravam a direo da alameda em que andavam as duas.
Depois de pousos minutos encontraram-se como que por acaso.
Meneses, que ia de cabea baixa, simulou um ligeiro espanto e parou.
As duas pararam igualmente.
Cristiana tinha a cara voltada para o lado. Eullia, com um divino sorriso,
perguntou:
 Em que pensas, meu amor?
 Em nada.
 No  possvel, retorquiu Eullia.
 Penso em tudo.
 O que  tudo?
 Tudo?  o teu amor.
 Deveras?
E voltando-se para Cristiana, Eullia acrescentou:
 Olha, Cristiana, j viste um marido assim?  o rei dos maridos. Traz
sempre na boca uma palavra amvel para sua mulher.  assim que deve
ser. No esquea nunca estes bons costumes, ouviu?
Estas palavras alegres e descuidosas foram ouvidas distraidamente por
Cristiana. Meneses tinha os olhos cravados na pobre moa.
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 Eullia, disse ele, parece que D. Cristiana est triste.
Cristiana estremeceu.
Eullia voltou-se para a amiga e disse:
 Triste! J assim me pareceu.  verdade, Cristiana? Estars triste?
 Que idia! Triste por qu?
 Ora, pela conversa que h pouco tivemos, respondeu Meneses.
Cristiana fitou os olhos em Meneses. No podia compreend-lo e no
adivinhava onde queria ir o marido de Eullia.
Meneses, com o maior sangue frio, acudiu  interrogao muda que as
duas pareciam fazer.
 Eu contei a D. Cristiana o assunto da nica novela que li em minha vida.
Era um livro interessantssimo. O assunto  simples mas comovente.  uma
srie de torturas morais por que passa uma moa a quem esqueceu
juramentos feitos na mocidade. Na vida real este fato  uma cousa mais
que comum; mas tratado pelo romancista toma um tal carter que chega a
assustar o esprito mais refratrio s impresses. A anlise das atribulaes
da ingrata  feita por mo de mestre. O fim do romance  mais fraco. H
uma situao forada... uma carta que aparece... Umas cousas... enfim, o
melhor  o estudo profundo e demorado da alma da formosa perjura. D.
Cristiana  muito impressvel. . .
 Oh! meu Deus! exclamou Eullia. S por isto?
Cristiana estava ofegante. Eullia, assustada por v-la em tal estado,
convidou-a a recolher-se. Meneses apressou-se a dar-lhe o brao e
dirigiram-se os trs para casa. Eullia entrou antes dos dous. Antes de pr
p no primeiro degrau da escada de pedra que dava acesso  casa,
Cristiana disse a Meneses, em voz baixa e concentrada:
  um brbaro!
Entraram todos. Era j noite. Cristiana reparou que a situao era falsa e
tratou de desfazer os cuidados, ou porventura as ms impresses que
tivessem ficado a Eullia depois do desconchavo de Meneses. Foi a ela, com
o sorriso nos lbios:
 Pois, deveras, disse ela, acreditaste que eu ficasse magoada com a
histria? Foi uma impresso que passou.
Eullia no respondeu.
Este silncio no agradou nem a Cristina, nem a Meneses. Meneses
contava com a boa f de Eullia, nica explicao de ter adiantado aquela
histria to fora de propsito. Mas o silncio de Eullia teria a significao
que lhe deram os dous? Parecia ter, mas no tinha. Eullia achou estranha
a histria e a comoo de Cristiana; mas, entre todas as explicaes que lhe
ocorressem, a infidelidade de Meneses seria a ltima, e ela nem passou da
primeira. Sancta simplicitas!
A conversa continuou fria e indiferente at a chegada de Nogueira.
Seriam ento nove horas. Serviu-se o ch, depois do que, todos se
recolheram. Na manh seguinte, como disse acima, deviam partir Nogueira
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e Cristiana.
A despedida foi como  sempre a despedida de pessoas que se estimam.
Cristiana fez os esforos maiores para que no esprito de Eullia no
surgisse o menor desgosto; e Eullia, que no usava mal, mal no cuidou
na histria da noite anterior. Despediram-se todos com promessa jurada de
se visitarem a mido.
CAPTULO III
PASSARAM-SE quinze dias depois das cenas que narrei acima. Durante esse
tempo nenhum dos personagens que nos ocupam tiveram ocasio de se
falarem. No obstante pensavam muito uns nos outros, por saudade
sincera, por temor do futuro e por frio clculo de egosmo, cada qual
pensando segundo os seus sentimentos.
Cristiana refletia profundamente sobre a sua situao. A cena do jardim
era para ela um prenncio de infelicidade, cujo alcance no podia avaliar,
mas que lhe pareciam inevitveis. Entretanto, que tinha ela no passado?
Um simples amor de criana, desses amores passageiros e sem
conseqncias. Nada dava direito a Meneses para reivindicar juramentos
firmados por coraes extremamente juvenis, sem conscincia da gravidade
das cousas. E demais, o casamento de ambos no invalidara esse passado
invocado agora?
Refletindo deste modo, Cristiana era levada s ltimas conseqncias.
Ela estabelecia em seu esprito o seguinte dilema: ou a reivindicao do
passado feita por Meneses era sincera ou no. No primeiro caso era a
paixo concentrada que fazia irrupo no fim de tanto tempo, e Deus sabe
onde poderiam ir os seus efeitos. No segundo caso, era simples clculo de
abjeta lascvia; mas ento, se mudara a natureza dos sentimentos do
marido de Eullia, no mudava a situaao nem desapareciam as apreenses
do futuro. Era preciso ter a alma profundamente mirrada para iludir daquele
modo uma mulher virtuosa tentando contra a virtude de outra mulher.
Em honra de Cristiana devo acrescentar que os seus temores eram
menos por ela que por Eullia. Estando segura de si, o que ela temia era
que a felicidade de Eullia se anuviasse, e a pobre moa viesse a perder
aquela paz do corao que a fazia invejada de todos.
Apreciando estes fatos  luz da razo prtica, se julgarmos legtimos os
temores de Cristiana, julgaremos exagerada as propores que ela dava ao
ato de Meneses. O ato de Meneses reduz-se, afinal de contas, a um ato
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comum, praticado todos os dias, no meio da tolerncia geral e at do
aplauso de muitos. Certamente que isso no lhe d virtude, mas tira-lhe o
mrito da originalidade.
No meio das preocupaes de Cristiana tomara lugar a carta a que
Meneses aludira. Que carta seria essa? Alguma dessas confidncias que o
corao da adolescncia facilmente traduz no papel. Mas os termos dela?
Em qualquer dos casos do dilema apresentado acima Meneses podia usar da
carta, a que talvez faltasse a data e sobrassem expresses ambguas para
sup-la de feitura recente.
Nada disto escapava a Cristiana. E com tudo isto entristecia. Nogueira
reparou na mudana que apresentava sua mulher e interrogou-a
carinhosamente. Cristiana nada lhe quis confiar, porque uma leve esperana
lhe fazia crer s vezes que a conscincia de sua honra teria por prmio a
tranqilidade e a felicidade. Mas o marido, no alcanando nada e vendo-a
continuar na mesma tristeza, entristecia-se tambm e desesperava. Que
podia desejar Cristiana? pensava ele. Na incerteza e na angstia da situao
lembrou-se de ter com Eullia para que esta ou o informasse, ou, como
mulher, alcanasse de Cristiana o segredo das suas concentradas mgoas.
Eullia marcou o dia em que iria  casa de Nogueira, e este saiu da chcara
da Tijuca animado por algumas esperanas.
Ora, nesse dia apresentou-se pela primeira vez em casa de Cristiana o
exemplar Jos de Meneses. Apareceu como a esttua do comendador A
pobre moa, ao v-lo, ficou aterrada. Estava s. No sabia que dizer quando
 porta da sala assomou a figura mansa e pacfica de Meneses. Nem se
levantou. Olhou-o fixamente e esperou.
Meneses parou  porta e disse com um sorriso nos lbios:
 D licena?
Depois, sem esperar resposta, dirigiu-se para Cristiana; estendeu- lhe a
mo e recebeu a dela fria e trmula. Puxou cadeira e sentou-se ao p dela
familiarmente.
 Nogueira saiu? perguntou depois de alguns instantes, descalando as
luvas.
 Saiu, murmurou a moa.
 Tanto melhor. Tenho ento tempo para dizer-lhe duas palavras.
A moa fez um esforo e disse:
 Tambm eu tenho para dizer-lhe duas palavras.
 Ah! sim. Ora bem, cabe s damas a precedncia. Sou todo ouvidos.
 Possui alguma carta minha?
 Possuo uma.
  um triste documento, porque, respondendo a sentimentos de outro
tempo, se eram sentimentos dignos deste nome, de nada pode valer hoje.
Todavia, desejo possuir esse escrito.
 Vejo que no tem hbito de argumentar. Se a carta em questo no vale
nada, por que deseja possu-la?
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  um capricho.
 Capricho, se existe algum  o de tratar por cima do ombro um amor
sincero e ardente.
 Falemos de outra cousa.
 No; falemos disto, que  essencial.
Cristiana levantou-se.
 No posso ouvi-lo, disse ela.
Meneses segurou-lhe em uma das mos e procurou ret-la. Houve uma
pequena luta. Cristiana ia tocar a campainha que se achava sobre uma
mesa, quando Meneses deixou-lhe a mo e levantou-se.
 Basta, disse ele; escusa de chamar seus fmulos. Talvez que ache grande
prazer em p-los na confidncia de um amor que no merece. Mas eu  que
me no exponho ao ridculo depois de me expor  baixeza.  baixeza, sim;
no devia mendigar para o corao o amor de quem no sabe compreender
os grandes sentimentos. Pacincia; fique com a sua traio; eu ficarei com
o meu amor; mas procurarei esquecer o objeto dele para lembrar-me da
minha dignidade.
Depois desta tirada dita em tom sentimental e lacrimoso, Meneses
encostou-se a uma cadeira como para no cair. Houve um silncio entre os
dous. Cristiana falou em primeiro lugar.
 No tenho direito, nem dever, nem vontade de averiguar a extenso e a
sinceridade desse amor; mas deixe que eu lhe observe; o seu casamento e
a felicidade que parece gozar nele protestam contra as alegaes de hoje.
Meneses levantou a cabea, e disse:
 Oh! no me exprobre o meu casamento! Que queria que eu fizesse
quando uma pobre moa me caiu nos braos declarando amar-me com
delrio? Apoderou-se de mim um sentimento de compaixo; foi todo o meu
crime. Mas neste casamento no empenhei tudo; dei a Eullia o meu nome
e minha proteo; no lhe dei nem o meu corao nem o meu amor.
 Mas essa carta?
 A carta ser para mim uma lembrana, nada mais; uma espcie de
espectro do amor que existiu, e que me consolar no meio das minhas
angstias.
 Preciso da carta!
 No !
Neste momento entrou precipitadamente na sala a mulher de Meneses.
Vinha plida e trmula. Ao entrar trazia na mo duas cartas abertas. No
pde deixar de dar um grito ao ver a atitude meio suplicante de Cristiana e
o olhar terno de Meneses. Deu um grito e caiu sobre o sof. Cristiana correu
para ela.
Meneses, lvido como a morte, mas cheio de uma tranqilidade aparente,
deu dous passos e apanhou as cartas que caram da mo de Eullia. Leu-as
rapidamente. Descompuseram-se-lhe as feies. Deixou Cristiana prestar os
seus cuidados de mulher a Eullia e foi para a janela. A fez em tiras midas
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as duas cartas, e esperou, encostado a grade, que passasse a crise de sua
mulher.
Eis aqui o que se passara.
Os leitores sabem que era aquele dia destinado  visita de Eullia a
Cristina, visita de que s Nogueira tinha conhecimento.
Eullia deixou que Meneses viesse para a cidade e mandou aprontar um
carro para ir  casa de Cristiana. Entretanto, assaltou-lhe uma idia. Se seu
marido voltasse para casa antes dela? No queria causar-lhe impacincias
ou cuidados, e arrependia-se de nada lhe ter dito com antecipao. Mas era
foroso partir. Enquanto se vestia ocorreu-lhe um meio. Deixar escritas
duas linhas a Meneses dando-lhe parte de que sara, e dizendo-lhe para que
fim. Redigiu a cartinha mentalmente e dirigiu-se para o gabinete de
Meneses.
Sobre a mesa em que Meneses costumava trabalhar no havia papel.
Devia haver na gaveta, mas a chave estava seguramente com ele. Ia saindo
para ir ver papel a outra parte, quando viu junto da porta uma chave; era a
da gaveta. Sem escrpulo algum, travou da chave, abriu a gaveta e tirou
um caderno de papel. Escreveu algumas linhas em uma folha, e deixou a
folha sobre a mesa debaixo de um pequeno globo de bronze. Guardou o
resto do papel, e ia fechar a gaveta, quando reparou em duas cartinhas
que, entre outras muitas se distinguiam por um sobrescrito de letra trmula
e irregular, de carter puramente feminino.
Olhou para a porta a ver se algum espreitava a sua curiosidade e abriu
as cartinhas, que, alis, j se achavam descoladas. A primeira carta dizia
assim:
Meu caro Meneses. Est tudo acabado. Lcia contou-me tudo. Adeus,
esquece-te de mim.  MARGARIDA.
A segunda carta era concebida nestes termos:
Meu caro Meneses. Est tudo acabado. Margarida contou-me tudo.
Adeus; esquece-te de mim.  LCIA.
Como o leitor adivinha, estas cartas eram as duas que Meneses recebera
na tarde em que andou passeando com Cristiana no jardim.
Eullia, lendo estas duas cartas, quase teve uma sncope. Pde conterse,
e, aproveitando o carro que a esperava, foi buscar a Cristiana as
consolaes da amizade e os conselhos da prudncia.
Entrando em casa de Cristiana pde ouvir as ltimas palavras do dilogo
entre esta e Meneses. Esta nova traio de seu marido quebrara-lhe a alma.
O resto desta simples histria conta-se em duas palavras.
Cristiana conseguira acalmar o esprito de Eullia e inspirar-lhe
sentimentos de perdo. Entretanto, contou-lhe tudo o que ocorrera entre
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ela e Meneses, no presente e no passado.
Eullia mostrou ao princpio grandes desejos de separar-se de seu
marido e ir viver com Cristiana; mas os conselhos desta, que, entre as
razes de decoro que apresentou para que Eullia no tornasse pblica a
histria das suas desgraas domsticas, alegou a existncia de uma filha do
casal, que cumpria educar e proteger, esses conselhos desviaram o esprito
de Eullia dos seus primeiros projetos e fizeram-na resignada ao suplcio.
Nogueira quase nada soube das ocorrncias que acabo de narrar; mas
soube quanto era suficiente para esfriar a amizade que sentia por Meneses.
Quanto a este, enfiado ao princpio com o desenlace das cousas, tomou
de novo o ar descuidoso e aparentemente singelo com que tratava tudo.
Depois de uma mal alinhavada explicao dada  mulher a respeito dos
fatos que to evidentemente o acusavam, comeou de novo a trat-la com
as mesmas carcias e cuidados do tempo em que merecia a confiana de
Eullia.
Nunca mais voltou ao casal Meneses a alegria franca e a plena satisfao
dos primeiros dias. Os afagos de Meneses encontravam sua mulher fria e
indiferente, e se alguma cousa mudava era o desprezo ntimo e crescente
que Eullia votava a seu marido.
A pobre me, viva da pior viuvez desta vida, que  aquela que anula o
casamento conservando o cnjuge, s vivia para sua filha.
Dizer como acabaram ou como vo acabando as cousas no entra no
plano deste escrito: o desenlace ainda  mais vulgar que o corpo da ao.
Quanto ao que h de vulgar em tudo o que acabo de contar, sou eu o
primeiro a reconhec-lo. Mas que querem? Eu no pretendo seno esboar
quadros ou caracteres, conforme me ocorrem ou vou encontrando.  isto e
nada mais.
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15
Sobre o autor e sua obra
JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS
nasceu no Rio de Janeiro, a 21 de junho de 1839 e
faleceu na mesma cidade, em 29 de setembro de
1908. Filho de mulato, brasileiro, e de branca,
portuguesa; era gago, epilptico, pobre,  por
causa disto no pde estudar em escolas e tornouse
um grande autodidata.
Colaborou na revista "Marmota Fluminense", foi
aprendiz de tipgrafo na Imprensa Nacional, onde
conheceu seu protetor, Manuel Antonio de Almeida;
foi revisor de provas na Editora Paula Brito e no
"Correio Mercantil" e colaborador em vrios jornais
e revistas da poca.
Na imprensa publicou vrios contos, crnicas, folhetins, artigos de crtica, muitos
dos quais assinados com pseudnimos: Plato, Gil, Lara, Dr. Semana, Job, M.A.,
Max Manasss e outros.
Casou-se em 1869 com D. Carolina Novais, que veio dar mais inspirao  sua vida
literria. Em 1904, quando D. Carolina morreu, ainda inspirou o mais belo soneto
de sua produco: "A Carolina", publicado no livro "Relquias de Casa Velha":
"Querida, ao p do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o corao de companheiro.
"Pulsa-lhe- aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existncia apetecida
E num recanto ps o mundo inteiro.
"Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
"Que eu, se tenho nos olhos malferidos
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Pensamentos de vida formulados,
So pensamentos idos e vvidos".
Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, em 1897.
Poesias: "Crislidas", (1864); "Falenas", "Americanas".
Romances: "Ressurreio", "A Mo e a Luva", "Helena", "Iai Garcia".
Contos: "Contos Fluminenses", "Histrias da Meia Noite", (1869).
Teatro: "Desencantos", "0 Caminho da Porta", "0 Protocolo", "Quase Ministro", "Os
Deuses de Casaca". Crnicas e Crticas. Fase Realista (de 1881 a 1908)
Poesias: "Ocidentais".
Romances: "Memrias Pstumas de Brs Cubas", "Quincas Borba", "Dom
Casmurro", "Esa e Jac", "Memorial de Aires". Contos: "Papis Avulsos",
"Histrias sem Data", "Vrias Histrias", "Pginas Recolhidas", "Relquias de Casa
Velha".
Teatro: "Tu, s Tu, Puro Amor" "No Consultes Mdico", "Lio de Botnica",
crnicas e crticas.
Machado de Assis  de estilo clssico e sbrio, com frases curtas e bem
construdas, vocabulrio muito rico e construes sintticas perfeitas. Sua obra 
de anlise de caracteres e seus tipos so inesquecveis e verdadeiros. Em toda sua
obra h uma preocupao pelo adultrio, tentado ou consumado, e muito de
filosofia: a filosofia do humanitismo, que  explicada no seu romance "Quincas
Borba". Sua tcnica de composio no romance  muito importante para a
compreenso da obra: no h homogeneidade na extenso dos captulos: ora
curtos, ora longos, no existe normalmente a seqncia linear, isto , muitas vezes
um captulo no tem um final de ao, que ir continuar no no imediatamente
seguinte, mas em outro um pouco distante. Esta tcnica procura prender a ateno
do leitor at o fim do livro, o que realmente consegue.
Sem dvida, trata-se do mais alto escritor brasileiro de todos os tempos, o
primeiro escritor universal de nossa Literatura. De uns tempos para c, sua obra
vem sendo objeto de estudos em profundidade, sob ngulos vrios, constituindo-se
no maior acervo bio-bibliogrfico que jamais suscitou um escritor nacional.
Sobretudo, cumpre destacar-se, como a mais importante de sua obra, a parte de
fico - seus contos, verdadeiras obras-primas - e os romances a partir da fase
que se Iniciou com as "Memrias Pstumas de Brs Cubas".
Machado de Assis no se filia a qualquer coisa, dando apenas vazo ao seu prprio
sentimento de homem introspectivo.  possuidor de um estilo simples, sem
nenhum artificialismo. A conciso  uma de suas mais eloqentes caractersticas.
17
Cuidou, em suas obras, mais do homem do que da paisagem. No foi grande
poeta. Inicialmente passou pelo romantismo e depois mostrou-se parnasiano. Para
Machado de Assis o homem  egosta, impassvel diante da felicidade ou
infelicidade do seu semelhante. 0 sofrimento  inerente  prpria condio
humana. 0 homem sonha com a felicidade, sem suspeitar que tudo  Iluso.
Machado aconselha ento a solido, o Isolamento, por no crer no solidarismo
humano.
No teatro Machado de Assis se revela como tradutor, critico e comedigrafo. Como
critico procurava exaltar os valores morais. Para ele, "a arte pode aberrar das
condies atuais da sociedade para perder-se no mundo labirntico das abstraes.
0 teatro  para o povo o que o Coro era para o antigo povo grego: uma iniciativa
de moral e civilizao."
E ainda foi alm. Ressuscitando uma antiqualha dos Sculos XVII; inovou o soneto,
dando-lhe a forma contnua do (Crculo Vicioso). Outra inovao: a alternncia do
octosslabo com o tetrasslabo, de que se utilizou nos versos a Artur de Oliveira.
Combinado o octosslabo com o doclecasslabo, criou ainda o ritmo dos
agrupamentos da Mosca Azul. E deu em 1885 uma incomparvel lio de poesia
quando, na ocasio comemorativa do centenrio do Marqus de Pombal, publicou,
sob o ttulo de A Suprema Injria, uma srie de quatorze sonetos, onde no h
dois iguais na sua forma.
Machado de Assis foi ainda um tcnico do verso, o admirvel tradutor de a primeira
fase machadiana. 0 terceiro romance, Helena, jovem confrade, e escreve poesia, a
quem devemos pelo o que seria diferente da j representa uma evoluo. Vai
eclodir com as Memrias Pstumas de Brs Cubas.
No romance como na poesia, Machado de Assis ressente-se de influencia romntica
nas primeiras obras: Ressurreio (1872), A Mo e a Luva (1875), Helena (1876) e
Iai Garcia (1878).  toda romntica a concepo dos personagens e do entrecho;
revela-se a personalidade do autor na preocupao mais acentuada do estudo dos
caracteres. Mas as situaes que arma, para os revelar, e a prpria compreenso
que deles tem, tudo trai a viso romntica, ainda que mitigada pela analise
psicolgica.
De Ressurreio, em que a narrao e linear, a lngua pobre, os caracteres de
linhas definidas, a Iai Garcia, onde a narrativa  dotada de maior penetrao, a
lngua se precisa e os caracteres j se mostram mais complexos, o progresso 
significativo. 0 mais romanesco dos trs  Helena, a confinar por vezes com a
inverossimilhana.
Memrias Pstumas de Brs Cubas
Brs Cubas, j falecido, conta, do outro mundo, as suas memrias: "Expirei em
1869, na minha bela chcara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos
e prsperos, era solteiro, possua trezentos contos e fui acompanhado ao cemitrio
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por onze amigos". Galhofando dos ascendentes, fala da prpria genealogia.
Assevera que morreu de pneumonia apanhada quando trabalhava num invento
farmacutico, um emplastro medicamentoso.
Virglia, sua ex-amante, que j no via h alguns anos, visitou-o nos ltimos dias
de vida. Narra Brs Cubas um delrio que teve durante a agonia: montado num
hipoptomo foi arrebatado por unia extensa e gelada plancie, at o alto de uma
montanha, de onde divisa a sucesso dos sculos. Alm dos pais, tiveram grande
influncia na educao do pequeno Brs Cubas trs pessoas: tio Joo, homem de
lngua solta e vida galante; tio Ildefonso, cnego, piedoso e severo; Dona
Emerenciana, tia materna, que viveu pouco tempo. Brs passou uma infncia de
menino traquinas, mimado demasiadamente pelo pai.
Aos dezessete anos apaixona-se por Marcela, dama espanhola, com quem teve as
primeiras experincias amorosas. Para agradar Marcela, Brs comea a gastar
demais, assumindo compromissos graves e endividando-se. Marcela gostava de
jias e Brs procurava fazer-lhe todos os gostos. "Marcela amou-me, diz Brs
Cubas, durante quinze meses e onze contos de ris". Quando o pai tomou
conhecimento dos esbanjamentos do filho, mandou-o para a Europa: "vais cursar
uma Universidade", justificou. Em Coimbra, Brs segue o curso jurdico e
bacharela-se. Depois, atendendo a um chamado do pai, volta ao Rio: a me estava
moribunda. E, de fato, apenas chega ao Brasil, a me falece. Passando uns dias na
Tijuca, conhece Eugnia, moa bonita, mas com um defeito na perna que a fazia
coxear um pouco, com ela mantm um passageiro romance.
O pai de Brs tem duas, ambies para o filho: quer cas-lo e faze-lo deputado.
Tudo faz para encaminh-lo no rumo do casamento e procura aumentar o circulo
de amigos influentes na poltica, a fim de preparar o caminho para o futuro
deputado. Assim  que Brs Cubas  apresentado ao Conselheiro Dutra que
promete ajudar ao jovem bacharel na pretendida ascenso poltica.
Brs nesta altura vem a conhecer Virglia, filha do Conselheiro Dutra, pela qual se
apaixona. Parecia, com isso, que os sonhos do pai sobre Brs estavam prestes a
realizar-se: bem encaminhado na poltica e quase noivo. Entretanto aconteceu um
imprevisto: surge Lobo Neves que no somente lhe rouba a namorada, mas
tambm cai nas boas graas do Conselheiro Dutra.
Vendo assim preterido o filho, o pai de Brs sente-se profundamente desapontado
e magoado. Veio a falecer dali a alguns meses, de um desastre. Virglia casa-se
com Lobo Neves e, pouco tempo depois, v eleito Deputado o marido. Mas, na
verdade, Virglia casara-se com Lobo Neves por interesse, e ama realmente a Brs
Cubas. Virglia e Brs principiam a encontrar-se com freqncia e, em breve,
tornam-se amantes. Lobo Neves adorava a esposa e nela confiava inteiramente.
Alis no tinha muito tempo para observar o que se passava, j que estava
entregue totalmente  poltica.
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Narra nesta altura Brs Cubas o encontro que teve com seu ex-colega de escola
primria, Quincas Borba, que se tornara um infeliz mendigo de rua. Depois do
encontro com Quincas, Brs percebe que o maltrapilho lhe roubara o relgio. Os
encontros amorosos entre Virglia e Brs suscitam comentrios e mexericos dos
vizinhos, amigos e conhecidos. Por esse motivo, Brs prope a Virglia a fuga para
um lugar distante. Virglia, porm, pensa no marido que a ama e na famlia, e
sugere "uma casinha s nossa", metida num jardim, em alguma rua escondida. A
idia parece boa a Brs, que sai remoendo a proposta: "uma casinha solitria, em
alguma rua escura". Virglia e sua ex-empregada, chamada Dona Plcida, se
encarregam de adornar a casa e, aparentemente, quem ali reside  Dona Plcida.
Ali os dois amantes se encontram sem maiores embaraos, e sem despertarem
suspeitas. Sucedeu que, de certa feita, por motivos polticos, Lobo Neves foi
designado como presidente de uma provncia e, dessa forma, teria de afastar-se
com a mulher. Brs fica desesperado e pede a Virglia que no o abandone.
Quando tudo parece sem soluo, eis que surge Lobo Neves e, para agradar ao
amigo da famlia, convida-o para acompanh-lo como secretrio. Brs aceita. Os
mexericos se tornam mais intensos e Cotrim casado com Sabina, procura fazer ver
ao cunhado que a viagem seria uma aventura perigosa. Mais por superstio do
que pelos conselhos de Cotrim, Lobo Neves acaba no aceitando mais o cargo de
presidente, porque o decreto de nomeao sara publicado no Dirio oficial num dia
13: Lobo Neves tinha pavor pelo nmero, um nmero fatdico. Lobo Neves recebe
uma carta annima denunciando os amores da esposa com o amigo. Isso faz com
que os dois amantes se mostrem mais reservados, embora continuem
encontrando-se na Gamboa (onde fica a casa de Dona Plcida).
Surge ento um acontecimento que vem alterar a situao os personagens: Lobo
neves  novamente nomeado presidente e, desta vez, parte para o interior do pas
levando consigo a esposa. Brs procura distrair-se e esquecer a separao.
A irm Sabina, que vinha procurando "arranjar" um casamento para Brs, volta a
insistir em seu objetivo. A candidata, uma moa prendada, chamava-se Nh-lol.
Mesmo sem entusiasmo, Brs aparenta interesse pela pretendente, mas Nh-lol
vem a falecer durante urna epidemia. o tempo vai passando.
Mais por distrao do que por idealismo, Brs procura um derivativo de suas
decepes amorosas na poltica. Faz-se deputado e, na assemblia, vem a
encontrar-se com Lobo Neves que havia voltado da provncia. Encontra-se tambm
com Virglia, que no tinha j aquela beleza antiga que o havia atrado
anteriormente. Assim, por desinteresse reciproco, chegam ao fim os amores de
Brs e Virglia. Quincas Borba, o mendigo, reaparece e lhe restitui o relgio,
passando a ser um freqentador da casa de Brs.
Quincas Borba estava mudado: no era mais mendigo, recebera uma herana de
um tio em Barbacena. Virara filsofo: havia inventado urna nova teoria filosficoreligiosa,
o Humanitismo, e no falava noutra coisa. 0 prprio Brs Cubas passa a
interessar-se muito pelas teorias de Quincas Borba. Morre, por esse tempo, o Lobo
20
Neves, e Virgilia "chorou com sinceridade o marido, como o havia trado com
sinceridade". Tambm vem a falecer Quincas, Borba, que havia enlouquecido
completamente. Brs Cubas deixou este mundo pouco depois de Quincas Borba,
por causa de urna molstia que apanhara quando tratava de um invento seu,
denominado " emplasto Brs Cubas".
E o livro conclui:
"Imaginar mal; porque ao chegar a este outro lado do mistrio, achei-me com um
pequeno saldo, que  a derradeira negativa deste captulo de negativas: no tive
filhos, no transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa misria".
Fato narrativo em primeira pessoa; posio trans-temporal, a narrativa acompanha
os vaivns da memria do narrador defunto.
Quebra da unidade estrutural da narrativa: - forma livre, estrutura fragmentada,
ausncia de um fio lgico e ausncia de um conflito central.
Drama da irremedivel tolice humana. Brs Cubas tudo tentou e nada deixou. A
vida moral e afetiva  superada pela biologicamente satisfeita. Acomodao cnica
ao erro, ou melhor, a justificao moral interior racionalizada. Pessimismo
(influncia de Sterne, Schopenhauer, Darwin e Voltaire).
Segundo o Professor Alfredo Bosi :
"Memrias Pstumas de Brs Cubas" opera um salto qualitativo na Literatura
Brasileira. "A revoluo dessa obra, que parece cavar um poo entre dois mundos,
foi uma revoluo ideolgica e formal: aprofundando o desprezo s idealizaes
romnticas e ferindo o cerne do narrador onisciente, que tudo v e tudo julga,
Machado deixou emergir a conscincia nua do indivduo, fraco e incoerente. 0 que
restou foram as memrias de um homem igual a tantos outros, o cauto e
desfrutador Brs Cubas.
Quincas Borba
Quincas Borba  um filsofo-doido. Mais na segunda que na primeira parte. Criou
uma filosofia: Humanitas. "Humanitas"  o princpio nico, universal, eterno,
comum, indivisvel e indestrutvel... Pois essa substncia, esse principio
indestrutvel  que  Humanitas... " Uma guerra: duas tribos que se encontram,
frente a frente, perto de uma plantao de batatas que s daro para sustentar
uma delas.  a luta pelas batatas. Pela sobrevivncia. A tribo que vence, ganha as
batatas. "Ao vencedor, as batatas". Filosofia e sandice condimentam as lies de
Quincas Borba.
21
0 filsofo tinha um co: Quincas Borba. Pusera nele o seu prprio nome. Afinal
Humanitas era comum para ele e para o co. E no s: se morresse antes
sobreviveria o oo. Um co, meio tamanho, cor de chumbo, malhado de preto. Um
filsofo assim tinha que acabar em... Barbacena. AI conheceu a Piedade, viva de
parcos meios, Era irm de Rubio. No se casou com o herdeiro. Rubio foi o
melhor amigo e enfermeiro do filsofo.
Quando Quincas Borba morreu, numa incurvel semidemncia, na casa de Brs
Cubas, no Rio, Rubio ficou rico, herdeiro universal do falecido filsofo. Herdeiro de
tudo. Depois em breve pendncia recebeu: casa na Corte, uma em Barcelona,
escravos, aes no Banco do Brasil e muitas outras, jias, dinheiro, livros, a
filosofia do morto e o seu co Quincas Borba. A clusula nica do testamento era
tratar bem o co.
0 novo-rico muda-se para a Corte. Fica conhecendo o casal Palha e Sofia. E o
pobre mestre-escola fica apaixonado por ela. Que olhos, que ombros, que
braos!... Vinte e seis anos... Cada aniversrio era um novo polimento dado pelo
tempo.  bonita, sabe que , e sabe mostrar-se. 0 marido gostava de mostr-la a
todos: vejam o que so as minhas e de se mostrar . E Sofia aprendeu logo e bem a
arte se mostrar. Sofia seduz Rubio. Engana-o... Busca o dinheiro. Ganha
presentes riqussimos. O marido funda at a sociedade Palha e Cia.
 o dinheiro de Rubio que vai correndo. Muito depressa. A Sofia tem l os seus
desejos escondidos para com o galanteador Carlos Maria, Pobre Rubio! 0 dinheiro
acabando, os amigos vo minguando, e a loucura vai chegando. Rubio passa
pelas ruas aos gritos dos moleques ( 0 gira,  gira...) certo que  Napoleo III .
Metem-no num Sanatrio. Rubio foge do sanatrio do Rio e vai para Barbacena.
L morre. E trs dias depois encontraram o co Quincas Borba, tambm morto,
numa rua.
 o fim? Leitor: "eia, chora os dois recentes, se tens lgrimas.Se so tens risos, rite.
 a mesma coisa.  outra crnica de fraquezas e misrias morais, concluda
com uma filosofia desencantada, a filosofia do Humanitas: "Ao vencedoras
batatas"... Uma sbita fortuna, uma paixo adltera, ambies polticas acabam
levando Rubio  loucura. Ele, que antes era um humilde mestre-escola, ingnuo e
puro, envolve-se em um novo mundo, violento e agressivo. A fraqueza o destri.
Narrado em 3a Pessoa.  o mais objetivo dos Romances de Machado. Anlise
psicolgica de um homem Pobre que subitamente fica rico e a fortuna arrasta-o 
loucura. E s a loucura salva Rubio do destino vulgar de vaidoso rico, explorado
pelos que o cercam.
O Humanitismo:
"Ao vencedor, as batatas", pode ser interpretado como uma pardia irnica ao
positivismo e evolucionismo. Posies filosficas dominantes na segunda metade
do sculo XIX-.  uma caricatura do princpio da evoluo e da seleo natural que,
22
na poca, saam do campo da biologia para impregnar a filosofia.
DOM CASMURRO
A prpria personagem central, Bentinho,  que conta a sua histria. Pincipia
dizendo que est morando, sozinho, auxiliado por um criado, no Engenho Novo
(Rio de Janeiro), em uma casa que ele mandara construir igual quela em que
passara a infncia, em Matacavalos. Como vive isolado, os vizinhos apelidaram de
Dom Casmurro, apelido que pegara. A histria principia quando Bentinho j est
com quinze anos e sua amiga de infncia, Capitu, com quatorze.
Os dois crescem juntos e se estimam sinceramente. Dona Glria, me de Bentinho,
viva, tendo sido infeliz no primeiro parto, fizera a Deus uma promessa, se fosse
bem sucedida no segundo parto, o filho seria religioso (padre ou freira, conforme o
sexo)  Por isso, estava disposta a cumprir a promessa: Bentinho iria para o
seminrio.
 medida que o tempo passa e que a amizade de Bentinho e Capitu se transforma
em namoro srio e apaixonado, a idia do seminrio vai-se tornando um grave
problema para os dois, que buscam todas as maneiras de evit-lo. Justina, prima
de Dona Glria, que vivia em Casa desta, e a quem Bentinho suplica que interceda
com a me em seu favor, se nega. Jos Dias, velho empregado da casa, muito
estimado, diz que o problema no  fcil, pois o melhor , antes, aplainar o
caminho. 0 prprio Bentinho, de ndole tmida, tenta falar com a me, mas nem
sequer consegue dizer-lhe o que quer. Capitu, e Bentinho perdem as esperanas
de evitar o seminrio. De qualquer modo, amando-se sinceramente, juram que,
acontea o que acontecer, se casaro. Bentinho ir para o seminrio, mas ficar
apenas algum tempo. Depois sair e sero felizes.
No seminrio, Bentinho trava conhecimento com Escobar, que se toma seu amigo
e confidente. A vida agora transcorre entre os estudos eclesisticos e as visitas
semanais  sua casa. Escobar em conversa com bentinho, tem uma idia: Dona
Glria, rica que , poderia cumprir a promessa de outro modo, isto , custeando as
despesas de um seminarista pobre, ficando Bentinho livre do seminrio. A idia
vinga e Bentinho retoma  casa. Anos depois, j formado em Direito, casa-se com
Capitu e comeam uma vida repleta de felicidades. E essa felicidade ainda se torna
maior quando Escobar, que tambm sara do seminrio, casa-se com Sancha,
amiga de Capitu.
As duas famlias visitam-se freqentemente. Escobar e Sancha tm uma filha, 
qual do o nome de Capitolina (Capitu). A nica tristeza (se  que se pode chamar
tristeza)  no terem, Bentinho e Capitu, um filho. Por isso, fazem promessas e
rezam continuamente. E o filho vem: um menino, a alegria dos pais. Chama-se
Ezequiel. Escobar vem morar mais prximo de Bentinho e Capitu. Certo dia,
Escobar se aventura nadando pelo mar agitado e morre afogado. Sancha retira-se
para o Paran, onde possua parentes.
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E a vida continua, feliz. S uma coisa principia a preocupar cada vez mais
seriamente a Bentinho: Ezequiel,  medida que vai crescendo, vai-se tornando uni
retrato vivo do falecido amigo. Os mesmos traos, o mesmo cabelo, os mesmos
olhos, o mesmo andar, at os mesmos tiques. A dvida atormenta Bentinho, e
uma infinidade de pequenas coisas que no passado haviam passado despercebidas
comeam a avolumar-se confirmando as suspeitas: Capitu o trara. Um dia explode
com Capitu, que no consegue encontrar meios de escusar-se. Pelo contrrio, suas
desculpas confirmam definitivamente a culpa. Bentinho leva a esposa adltera? E o
filho de Escobar para a Sua, onde deles se separa. Tempos depois Capitu vem a
falecer. Ezequiel, j moo, surge em casa de Bentinho: tornara-se a cpia do pai.
Ezequiel no pra no Brasil e, participando de uma excurso no Oriente, tambm
morre.
 o trmino do livro. Conclui Machado de Assis: A minha primeira amiga e o meu
melhor amigo, to extremosos ambos e to queridos, tambm quis o destino que
acabassem juntando-se e enganando-me. A terra lhes seja leve!
Narrado na primeira pessoa, Bentinho (D. Casmurro), prope-se a ATAR AS DUAS
PONTAS DA VIDA. Ao evocar o passado, a personagem  narrador coloca-se num
ngulo neutro de viso. Dessa maneira, pode repassar, sem contamin-los,
episdios e situaes, atitudes e reaes, acompanhadas apenas da carga
emocional correspondente ao impacto do momento da ocorrncia.
Simultaneamente, ope a esse ngulo de reconstituio do passado o ngulo do
prprio momento da evocao, marcado pelo desmoronamento da iluso de sua
felicidade. Dessa forma temos uma dupla viso da experincia, reconstituda em
termos de exposio e de anlise. A viso esfumaada do adultrio  um dos
requintes do Bruxo do Cosme Velho (Machado). Parece inspirado no drama de
Otelo, de Shakespeare.
CAPITU: olhos de ressaca, cigana oblqua e dissimulada  a mais forte criao
de Machado. Com inalterada frieza e racionalidade calculada vai tecendo o seu
destino e tambm o dos outros.
ESA E JAC
 a histria dos gmeos Pedro e Paulo, filhos de Natividade, que desde o
nascimento dos meninos s pensa num futuro cheio de glria para eles.  medida
que vo crescendo, os irmos comeam a definir seus temperamentos diversos:
so rivais em tudo. Paulo  impulsivo, arrebatado, Pedro  dissimulado e
conservador  o que vem a ser motivo de brigas entre os dois. J adultos, a causa
principal de suas divergncias passa a ser de ordem poltica  Paulo  republicano
e Pedro, monarquista. Estamos em plena poca da Proclamao da Repblica,
quando decorre a ao do romance.
At em seus amores, os gmeos so competitivos. Flora, a moa de quem ambos
gostam, se entretm com um e outro, sem se decidir por nenhum- dos dois: 
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retrada, modesta, e seu temperamento avesso a festas e alegrias levou o
conselheiro Aires a dizer que ela era inexplicvel. 0 conselheiro  mais um
grande personagem da galeria machadiana, que reaparecer como memorialista no
prximo e ltimo romance do autor: velho diplomata aposentado, de hbitos
discretos e gosto requintado, amante de citaes eruditas, muitas vezes interpreta
o pensamento do prprio romancista.
As divergncias entre os irmos continuam, muito embora, com a morte de Flora,
tenham jurado junto a seu tmulo uma reconciliao perptua. Continuam a se
desentender, agora em plena tribuna, depois. Que ambos se elegeram deputados,
e s se reconciliam ao fim do livro, com novo juramento de amizade eterna, este
feito junto ao leito da me agonizante.
Narrado em terceira pessoa pelo o Conselheiro Aires. H referncias  situao
poltica do Pais, na transio Imprio/Repblica.  marcado pela ambigidade e
contradio. Pedro e Paulo so os dois lados da verdade.
MEMORIAL DE AIRES
Este  o ltimo romance do autor. Aqui, dois idlios so narrados paralelamente, ao
longo das memrias do conselheiro Aires, personagem surgido em Esa e Jac: o
do casal Aguiar e o da viva Fidfia com Tristo. Trata-se de um livro concebido
em tom ntimo e delicado, s vezes repleto de melancolia. Nele Machado de Assis
ps muito dos ltimos anos de sua vida com Carolina, falecida quatro anos antes
da publicao. No h muito que contar, seno pequenos fatos da vida cotidiana de
um casal de velhos. 0 estilo  de extrema sobriedade, e o autor, j na velhice,
pretendeu com este livro prestar um depoimento em favor da vida, ainda que em
tom de mal disfarada tristeza e at mesmo desolao.
Memorial de Aires (1908) opera um verdadeiro retrocesso na obra machadiana.
Nele o romancista retorna  concepo romntica, mitigada pelo ceticismo risonho
do conselheiro Aires. Ai se respira a mesma atmosfera dos seus primeiros
romances: os seres so de eleio e a vida gira em torno do amor. Distingue-o,
porm, e torna-a muito superior queles a mestria do ofcio, o domnio do
instrumento.
Como novidade, traz a forma de dirio e o narrador no  onisciente; observa
como simples comparsa os personagens principais, procura adivinhar-lhes o ntimo
atravs de suposies prprias ou atravs de informaes alheias  a dar alguma
idia do processo de Henry James, este, entretanto, muito outro, com outras
intenes e de outra tessitura.
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